sábado, 16 de agosto de 2014

«Não desistas tão depressa desse livro», por Emanuel Amorim em Orgia Literária

livro ou crónica da visão?
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para que não desista tão depressa...
Não desistas tão depressa desse livro

A primeira vez que li António Lobo Antunes foi no meu décimo ano. Uma professora levou uma crónica e leu para nós. Era uma professora preguiçosa, que encontrava todas as desculpas para não nos dar aula (até porque mal dominava a matéria). Maravilhas do ensino profissional.

Desde logo fiquei fascinado pelas palavras de Lobo Antunes. Hoje já não recordo de que falava a dita crónica, mas recordo-me que no dia seguinte comprei A Morte de Carlos Gardel. Comprei este livro por cinco euros, numa papelaria que apenas tinha dois ou três livros, restos de colecções de jornais, e onde eu comprava todas as semanas o Blitz e DN (saudades DNA).

Não sei o que me cativou em António Lobo Antunes, mas a paixão não encontrou eco na minha primeira tentativa de ler A Morte de Carlos Gardel. Voltei a tentar uns meses mais tarde, mas voltei a não conseguir passar da primeira dezena de páginas - foram as minhas primeiras tentativas frustradas de ler os seus romances.

Desisti do romance, mas continuei, sempre que possível, atento às suas crónicas, que raramente me desiludem. É aí que encontro o meu Lobo Antunes de estimação. Conciso, incisivo, capaz de iluminar um qualquer pormenor de pequenas vidas moldadas pela tristeza, solidão e abandono. Não as leio todas as semanas, mas, quando a elas regresso, sinto que faço mal, que devia comprar a Visão sempre que lá escreve Lobo Antunes.

Essa minha admiração levou-me também às entrevistas que sempre foram interessantes, em especial algumas que deu nos anos noventa e que estavam recolhidas num site dedicado ao escritor. Esse site, uma verdadeira mina de entrevistas, críticas e fotos, desapareceu do meu radar. Penso que morreu, provando que nem tudo é imortal no reino digital. Triste. [*]

Nas entrevistas interessava-me o homem, claro, cheio de contradições, fantasmas, medos e frustrações. Conversas com António Lobo Antunes, de María Luisa Blanco, é um livro interessante, que nos mostra o homem e as motivações da sua obra. Para além de Lobo Antunes, são entrevistadas pessoas próximas. Dessas pessoas, recordo-me da interessante entrevista ao pai do autor, a única, creio, que acedeu dar. É uma obra obrigatória para quem devora os seus romances e as suas crónicas, mas também para quem nunca leu uma linha de Lobo Antunes.

Naturalmente, voltei a tentar os romances. Depois A Morte de Carlos Gardel: Memória de Elefante, Eu Hei-de Amar uma Pedra, As Naus e O Manual dos Inquisidores. Em todos a frustração falou mais alto – abandonei-os antes de terminar a sua leitura, nunca conseguido passar das primeiras dezenas de páginas.

Acima de tudo, o que me desmotiva é a repetição exaustiva de um estilo que me agrada em crónica, mas que me cansa em logo trechos. António Lobo Antunes escreve muito bem, mas está refém desse estilo que não é estático e que evoluiu ao logo dos anos - há enormes diferenças entre Memória de Elefante e Manual dos Inquisidores. Quer fugir à narrativa tradicional, mas acaba por construir autênticas paredes de betão cheias de frases pomposas, observações pormenorizadas de pequenos aspectos do dia-a-dia, uma obsessão barroca pelo detalhe e uma excessiva adjectivação de tudo o que se cruze com o olhar das personagens.

Apesar dessa continua frustração, decidi voltei a dar-lhe mais uma oportunidade. Desta feita será Explicação dos Pássaros, romance que comprei na Feira de Algés. As primeiras vinte páginas foram lidas com deleite, mas logo o cansaço voltou. Escrevo esta crónica para me obrigar a não desistir já dele. Quero aguentar estoicamente, quero ser capaz de terminar um romance de António Lobo Antunes. Há tanta coisa na sua prosa que me agrada, nomeadamente a forma como descreve o país do final dos anos 70 (mas também o período do Estado Novo), sempre atento ao grotesco, como se Portugal fosse uma enorme e viva caricatura. Mas exagera, repete, detalha cada coisa, cada objecto, cada pessoa, cada rua. É cansativo, ainda que, no meio de inúmeras frases desnecessárias e acessórias, haja uma que me acerta em cheio, que me põe a pensar, que me transporta para aquele período e que faz querer ler mais, que me diz que não será em vão o tempo que a ele dedicar.

No fundo, os romances de António Lobo Antunes são imensas lixeiras onde reluzem alguns objectos brilhantes. Espero ser capaz de continuar a procurá-los e, quem sabe?, voltar a escrever sobre Explicação dos Pássaros, desta feita para falar muito bem, dizer-vos que vale a pena, que sobrevivi e estou cá para vos contar que António Lobo Antunes é tão bom romancista quanto cronista. Por enquanto estou longe disso e sinto uma enorme tentação de abandonar a sua leitura.


por Emanuel Amorim
05.03.2013

ilustração de José Alexandre Ramos
sublinhados nossos

[*] Continuamos cá, Emanuel Amorim!

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