sábado, 29 de novembro de 2014

Karlo Mongaya - opinião sobre O Esplendor de Portugal

O esplendor de Portugal (e a colonização de Angola)

"O Esplendor de Portugal" de António Lobo Antunes é um magnífico romance que lida com o desencanto do colonialismo português em Angola. É a história de uma família de colonos, donos de uma exploração de carácter esclavagista. Família essa que caiu do pedestal da sua antiga glória aos gritos dos guerrilheiros movimentos independentistas angolanos.

A matriarca da família é deixada em Angola, vivendo na miséria com a esperança que os filhos voltarão para o seu lado. Estes, porém, agora adultos, vivem em Portugal as suas vidas desgastadas, todos derramando a parca aparência de humanidade que lhes resta, atormentados pelos fantasmas das suas antigas vivências em Angola.

Sendo um lancinante e angustiado olhar sobre esse "coração nas trevas" real (em oposição à imagísitca orientalista de Joseph Conrad sobre África), "O Esplendor de Portugal" é uma denúncia ao imperialismo, e da forma como tal regime explora esses povos periféricos por forma a sustentar a prosperidade da metrópole.

Graficamente retrata a forma como o poder político e económico, e as relações sociais dominantes que o próprio cria, desumaniza o povo governado, tornado monstros os governantes. É um imponente e temeroso retrato da opressão e da exploração a todos os níveis, através do ponto de vista desses antigos senhores agora despojados do seu poder.

Contado através de um fluxo de pensamentos e de memórias fragmentadas, que poeticamente alternam entre presente e passado, a construção deste romance reflecte o desmoronamento das vidas dos membros da família outrora próspera, embutida na sociedade colonial onde aqueles tinham as suas raízes.

De uma vez obscuro, irónico e poético, o romance imputa clara e significativamente uma extrema consciência de classe e psicologia racista das brutais e hedonistas elites coloniais. "O Esplendor de Portugal" é de leitura obrigatória.


por Karlo Mongaya
18.11.2014
[traduzido do inglês por José Alexandre Ramos]

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