quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ana Fernandes sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas (blog Delfos)

Até a pedra mais pequena encerra um mundo em si. Até a mais corroída pela erosão, até a mais invisível. Ver o que está para lá dessa pedra desgastada, observar os seus mundos em conflito, saber que esses mundos existem, é o que a literatura nos pode ensinar. A partir daí, para mim, todas as discussões sobre o que a literatura pode ou não pode, deve ou não deve, não têm importância nenhuma.

Se para João Botelho o cinema se resume “a luzes e sombras e seres-humanos aflitos no meio”, a literatura não é muito diferente uma vez que todas as personagens procuram um lugar ao sol para se aquecerem. Mesmo as mais comuns, mesmo as que vivem no mais banal dos prédios no mais banal dos bairros. Ir além da aparente erosão dos rostos, além do que transbordam para fora, significa encontrar um mundo não menos verdadeiro nem menos válido. Só alguém com mestria é que o consegue descrever com uma tal sensibilidade que põe tudo a descoberto e desarma. A literatura também é isso, desarmar e ganhar o péssimo vício de se ver tudo de todos os ângulos. Olhar para alguém, virá-lo do avesso, desarrumá-lo e ver o seu todo. Presas entre o desencanto, o passado e o presente, entre a solidão e as desilusões, entre os desejos e ilusões, as personagens que se dão a conhecer na primeira pessoa em ‘Caminho como uma casa em chamas’, de António Lobo Antunes, reflectem isso mesmo – mundos desfragmentados que pertencem a um quotidiano demasiado perto de nós. Mundos demasiado fortes a oscilarem pelo tempo desconexo sem, no entanto, deixarem de ser comuns e palpáveis. Mundos que poderiam, muito bem, habitar no prédio em que vivo. Este é um dos livros em que, estranhamente, há uma familiaridade que fala mais alto, uma acessibilidade que o leitor sente quase de forma invasiva porque todos nós cabemos ali. Se as personagens têm um lado pitoresco e se escondem na sua sombra e ilusão? Claro que sim. O que temos são mundos fechados em si mesmos, afastados do seu presente e quotidiano, afastados do que já não podem ter. Não deixa de ser curioso, no entanto, que seja um pouco desse lado pitoresco que nos aproxima delas. Somos nós, enquanto sociedade portuguesa, que ali estamos. Desde a juíza, passando  pelo combatente da  Guerra Colonial, até ao simples bêbado (este último protagonista da melhor e mais comovente narrativa que já li), estas pessoas, embora perdidas na sua sombra, carregam consigo o desejo mais democrático, humano, concreto e palpável que há — a necessidade de amor. Por instantes, é como se estivéssemos a olhar para crianças grandes e desajeitadas, com os braços no ar, a pedir da melhor forma que sabem, ‘ama-me, fica comigo’. É o reconhecimento dessa necessidade que não escolhe formas nem feitios e a mestria em descrevê-la que torna A.L.A um escritor da humanidade, de toda a humanidade, daquela palpável e banal que se cruza connosco nas ruas de todos os dias.


por Ana Fernandes
23.01.2015

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