domingo, 22 de fevereiro de 2015

António Carinha - O Manual dos Inquisidores: a escrita com música, a casa sem telhado

Há uma família rica. O pai é ministro, recebe a visita do professor Salazar, que o ouve para decidir os destinos do país, têm criadas e uma governanta, uma quinta com boa casa, jardins cuidados, uma boa vida.

Há uma família pobre. O filho vive numa casa destelhada, com janelas sem vidraças, recebe a visita da filha para ralhar com ele, nos jardins cresce capim, as cuecas misturam-se com os talheres na gaveta da cozinha.

A família é a mesma. A casa também. Os tempos é que mudaram. A família rica vivia no tempo da ditadura. A família pobre surgiu com a revolução que, em Portugal, no dia 25 de abril de 1974, tornou os portugueses livres.

- Livres de quê?
já que a miséria permanecia a mesma só que com mais gritaria, mais bêbedos e mais desordem por não haver polícia
[…], cansaram-se de besuntar os muros a giz, o do café desistiu do acordeão, os doentes do hospital continuavam na cerca a sua procissão de agonizantes […]

Nesta obra, António Lobo Antunes expõe as glórias e as misérias de uma família que conheceu a degradação em proporção inversa ao poder do passado. Poder que fazia com que o senhor doutor, ministro de Salazar, mandasse prender ou colocar em liberdade, com um rápido telefonema, quem o seu humor do momento indicasse. Mas que também o levavam a ter atitudes de afirmação bacoca, no íntimo do seu lar e, muitas vezes, no íntimo da servidão e dos corpos das suas empregadas.

O meu pai de mão aberta na nuca da filha do caseiro, uma adolescente descalça, suja, ruiva, suspensa das tetas das vacas acocorada num banquinho de pau, a filar-lhe o cachaço e a obrigá-la a dobrar-se para a manjedoura sem largar os baldes de leite, o meu pai outra vez escarlate a esmagar-lhe o umbigo nas nádegas, de cigarrilha acesa apontada às vigas do tecto sem que a filha do caseiro protestasse, sem que o caseiro protestasse, sem que ninguém protestasse ou imaginasse protestar, o meu pai tirando a mão da minha nuca e designando com desprezo a cozinha, os quartos das criadas, o pomar, a quinta inteira, o mundo
– Faço tudo o que elas querem, mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão.

O poder no seu lado mais obscuro, o poder das atitudes no recanto do lar, o poder que ninguém ousava contestar, é aqui muito trabalhado e alcança mais profundidade do que o poder da governação, mau grado os anseios do senhor doutor, que desejava ter sido ele a substituir Salazar. Quando recebe Caetano, que ocupou o lugar do velho ditador, trata-o com desprezo.

o senhor doutor numa cadeira de braços apontando ao professor Caetano uma cadeira sem braços, e se eu rodava a maçaneta a aparecia com o tabuleiro do bule e das chávenas e o prato das torradas afastava-me com as costas da mão antes de o professor Caetano poder abrir a boca
– Este Presidente do Conselho não bebe chá Titina

É o desprezo de que também irá sofrer, causado pelo filho, que também será desprezado, pela vida, que não lhe reconhece o estatuto de antigo ministro, pelas ordens que deixa de dar, essencialmente na privacidade das suas empregadas, na cozinha da casa, na urgência de uma vaca que quer parir.

Titina é a velha governanta que lamenta nunca ter sido assediada pelo patrão. Mais tarde, esquecida num lar da Misericórdia de Alverca, também desprezada, aguarda o dia em que o filho do senhor doutor chegará para levá-la.

[…] um destes dias vem a Alverca buscar-me, entra pela Misericórdia dentro com aquela segurança, aquela majestade, aquela autoridade, afastando a terapeuta ocupacional como se afasta um moscardo aborrecido

A terapeuta ocupacional é uma das vozes que contribuem para a riqueza polifónica de O Manual dos Inquisidores. Comentando a sua vida pessoal e profissional para o autor de um livro, explica o seu processo de divórcio e propõe uma obra ao autor que a escuta. Com ironia, Lobo Antunes brinca com a peculiar fama dos advogados, com a vizinha, médica, que fazia muito barulho nas suas brincadeiras sexuais num prédio onde tudo se ouvia, e com a proposta aparentemente ingénua da terapeuta que quer fazer relatos da sua vida numa «estalagenzinha no norte».

a médica que o ano passado acabou por engravidar, calar-se e trazer paz a Odivelas que os restantes condóminos são normaizinhos benza-os Deus, dois ou três impulsos a despachar que já não é nada mau e chega, e só tornei à cama derivado ao Adérito se embeiçar por uma rapariga lá da agência de viagens […], ainda me foram ambos a Odivelas na esperança de levarem metade da mobília e as prendas de casamento da família dele e eu acompanhada pelo advogado, a erguer a ceifeira
– Tira daí o sentido
o advogado que esse sim me ficou com a mobília e as prendas de casamento na conta que me apresentou a seguir ao divórcio, se quando terminar este livro lhe apetecer escrever um romance de advogados traga o gravador, vamos para um sítio calmo, uma estalagenzinha no norte, eu dito-lhe num fim-de-semana do primeiro ao último capítulo
[…]

Lobo Antunes usa a carnavalização para acentuar caraterísticas ou até para, embora com menos frequência, provocar o leitor, ou melhor, provocar no leitor a sensação de que cada pessoa tem, não o seu mundo, mas os seus mundos, construídos com as vicissitudes da vida, com as revoluções, com as surpresas, com monstros, com as vontades e os telefonemas do senhor ministro.

Quando o senhor ministro ligou às sete da manhã a mandar-me ir à quinta por ter uma vitela a parir, a minha mulher, acordada pelo telefone que atirei ao chão ao estender o braço para o aparelho, acendeu o candeeiro do lado dela, começou a fazer-me sinais para tapar o bocal
– Quem é Luís?
e de repente dei conta que vivia há trinta e cinco anos com um monstro
[…] o sapato vazio à espera de um Natal que não havia e se houvesse a melhor prenda que me podia dar era tornar-me viúvo, eu para a inquietação da fronha
– O ministro por causa de uma vaca ainda não foi a tua mãe descansa
a claridade de Setúbal nos estores igual ao âmbar da morgue onde o Cristo com cara de passador de droga, falecido de overdose, aguardava a autópsia na parede, as cortinas semelhantes a toalhas mortuárias
[…], a minha mulher a amainar devagarinho como um polvo adormece, mergulhando os tentáculos na areia do lençol
– Que alívio

Quem se confronta, pela primeira vez, com a escrita de António Lobo Antunes pode ficar admirado com a pontuação. Mas quando se entra na história parece inconcebível que a mesma pudesse ter sido pontuada de outra forma. É toda uma cadência e uma musicalidade que encaixam nas palavras que vão e vêm e nos tempos que se alternam. Noutros romances do autor acrescentar-se-ia a polifonia a este encaixe musical. Em O Manual dos Inquisidores a polifonia é extremamente forte mas, por outro lado, está muito bem organizada. As diferentes vozes estão muito mais claras e definidas do que em outras obras de Lobo Antunes. Mas a atenção continua a ser tão necessária para a leitura deste romance como de outros do escritor. «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão» é uma frase repetida algumas vezes. O leitor desatento julgará estar a repetir a página lida. O leitor concentrado sabe que é o senhor ministro que talvez tenha regressado ao estábulo. Ou, desta vez, talvez à cozinha.

– A gente tem instruções do tribunal para selarmos tudo
para selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos, os murmúrios e as vozes do passado, selar a cozinheira estatelada de costas no altar e o meu pai de calças pelos tornozelos
– Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão

«Selar os corvos, o vento, as rãs, os eucaliptos» e tudo o mais até ao ministro com as calças pelos tornozelos, era selar um passado. Mas selar o passado não é possível. O passado pode ser desprezado, pode ser reconstruído, pode ser maltratado. Mas não pode ser banido. E chega ao presente muito mais do que em simples memórias. Lobo Antunes exibe de maneira magistral este entrelaçado de tempos. A narrativa não apresenta um tempo linear. Vai e vem. Não encerra nenhum período de forma estanque. É aberta. E é de forma aberta que termina o romance. Sem final. Sem, sequer, ponto final.
   
como hei-de explicar-lhe, como hei-de tornar isto claro, dizer ao pateta do meu filho que posso não ter sido mas que, posso ter falhado mas que, dizer ao pateta do meu filho, você compreende, dizer ao pateta do meu filho
peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu


por António Carinha
21.02.2013

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