sábado, 21 de março de 2015

Consuelo Triviño Anzola sobre Memória de Elefante

Fazia muito tempo que não escutava um escritor “de casta” falar de seu ofício, que para mim é aquele tipo de autor que assume o trabalho criador com todos os riscos. Não me refiro só aos que deixam uma carreira paralela para se dedicar a escrever como um profissional da escrita (escritores / escrevinhadores – Barthes); mas aos que se submergem nas águas do seu idioma e vão cada vez mais fundo, além da aparência das coisas, na tentativa de desvendar os seus mistérios. Escrever é traduzir o intraduzível, o gemido, a solidão, a angústia, a culpa, a felicidade, emoções que se expressam sem palavras, que assomam ao rosto, modificando com o gesto, o trejeito ou a observação, a nossa percepção do outro. Um nó de emoções nos funde ou nos salva, e o escritor é esse artesão paciente que desfaz a rede para que saibamos quão longa é a corda, de onde surge, até onde chega, o que aprisiona e porquê.

Porém, uma coisa é o que diz um autor, o que opina sobre a escrita, sobre a arte e a literatura; e outra é a forma como concretiza a sua postura vital na obra, o que transmite a nós os leitores. No caso de Lobo Antunes, é possível entender e inclusive viver nos seus livros esse esforço de querer "ir mais além" na procura de uma verdade que nos isente do peso de uma educação, de uma história, de um passado que limita a nossa ânsia de existir tal como somos e não como os outros esperam de nós.

Memória de Elefante, um livro que o autor diz apreciar pouco por ser dos primeiros, entranhou-se em mim como todos os primeiros livros que padecem dessas imperfeições que tanto os humanizam. A perfeição é desumana para muitos povos. De facto, até os fabricantes de tapetes deixavam um fio fora do tecido para que a geometria da forma se desfizesse.

A história é o que menos interessa, declarava Lobo Antunes na palestra dada [em 2011] no Instituto Cervantes de Madrid. O que importa em Memória de Elefante é a forma como o autor recorre à terceira pessoa para penetrar na consciência do seu alter ego, o psiquiatra sobre quem pouca informação temos, mas a suficiente, ao longo do relato.

É verdade que o discurso se torna difícil, enquanto nos vemos imersos nesse nó emocional que se dissipa à medida que entendemos as circunstâncias vitais de uma criatura que ama e não sabe como expressar esse sentimento; a rebeldia de alguém que se nega a seguir os ditames familiares, as rígidas normas sociais e que o faz perder tudo por não corresponder ao modelo imposto.

A sensação de abandono é maior quando se renuncia voluntariamente a quem se ama, sem saber como sustentar uma ponte. Talvez porque a solidão seja a condição do ser, como intui a personagem.

Guiados pela voz do narrador, que nos leva até ao outro extremo da corda por vias travessas, no meio de um emaranhado de sentimentos, concluímos que a ironia é a única arma com que se pode contar e com a qual nos podemos defender da pergunta "Que faria eu se estivesse em meu lugar?", a mesma com que o protagonista se questiona no final do relato.


por Consuelo Triviño Anzola
09.02.2011
[traduzido do castelhano por Joana de Paulo Diniz]

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