sábado, 7 de março de 2015

Imagens distorcidas de um espelho: Uma leitura autobiográfica de Sôbolos Rios Que Vão, de António Lobo Antunes

edição brasileira Alfaguara (2012)
RESUMO: O trabalho faz uma leitura autobiográfica da obra Sôbolos rios que vão, do escritor português Lobo Antunes, a partir de textos teóricos a respeito das escritas de si. É necessário especular a possível vinculação do romance a essas narrativas devido às semelhanças e fatos encontrados no texto que remetem à vida do autor.

Sôbolos rios que vão, título que retoma os primeiros versos de “Babel e Sião”, de Luís de Camões, é o vigésimo segundo romance de António Lobo Antunes. Assim como no poema, o descontentamento com a situação do presente faz com que sejam trazidas à tona as lembranças de um passado saudoso porém inalcançável. Ao contrário do eu-lírico de “Babel e Sião”, que se sente desolado ao relembrar esse passado perdido, o narrador de Lobo Antunes consola-se em suas memórias e acolhe-se nelas para suportar as dores que lhe cercam, provenientes de uma luta fervorosa contra um câncer.

Como poema e romance compartilham a mesma temática geral, a efemeridade da vida que passa despercebida assim como os rios que se vão, a partir da primeira estrofe de Camões  entende-se o que o romance compreenderá: uma saudade nostálgica do que já foi vivido, saudade de “Sião do tempo passado”, da infância tranquila na vila dos avós, confrontando a agonia da “Babilônia ao mal presente”, dos sofrimentos de um paciente no hospital. O curso do rio também simboliza os caminhos da vida e, ao longo da distância que é percorrida, todos os elementos que se agregam a ele, outros rios que fortalecem seu tamanho, afluentes, memórias, marcas e pessoas, até que, finalmente, alcança um espaço final onde desemboca, e o caminho percorrido é reconstruído através de reflexões a respeito da própria existência.

[...]

Certamente a mais autobiográfica de suas obras, Sôbolos rios que vão é uma coletânea de registros confessionais que fazem uma reconstrução via memória da infância do personagem que, no ano de 2007, vive momentos de angústia, solidão e medo perante a morte quando levado a um hospital de Lisboa para a retirada de um cancro no intestino. Na forma de um diário ficcional, que relata os acontecimentos desde a internação até a retirada do tumor e a recuperação do protagonista, em um período que abrange nove dias entre 27 de março e 04 de abril daquele ano, um narrador descreve, na terceira pessoa, as fraquezas do corpo doente enquanto relembra uma infância tranquila em uma con(fusão) de duas realidades temporais [...]



por Maria Inácio Peixoto Quaresma
em Darandina, revista da Universidade Federal de Juiz de Fora (Brasil)
[não datado]

[texto não revisto segundo a norma ortográfica amtes do AO90 para português europeu, mantendo a grafia português brasil]

[referências a António Lobo Antunes na Web alteradas; por favor consultar notas após download do ficheiro; em caso de dúvida enviar e-mail para jalexramos@gmail.com]

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