domingo, 15 de março de 2015

José Miguel Lopes - Cinco (possíveis) razões para ler António Lobo Antunes


António Lobo Antunes, escritor natural de Lisboa, é nome unânime quando se fala nos autores mais importantes do século XX – em Portugal e não só. Afinal, são da sua autoria alguns dos livros mais marcantes das últimas décadas como, por exemplo, “Os Cus de Judas”. E que dizer das várias distinções literárias que o autor já recebeu – como o Prémio Jerusalém ou o Prémio Camões?

Quando, todavia, o tema de uma conversa é António Lobo Antunes, não é raro haver quem de imediato invoque o nome de José Saramago. Por vezes, fazem-no numa alusão à rivalidade que houve entre estes dois homens das letras – em cujas comparações, o escritor lisboeta tende a sair algo menosprezado, em favor dos feitos do autor de “Memorial do Convento”. E há quem fale, ainda, de Lobo Antunes como um homem de alegado mau-feitio, que escreve de uma forma desnecessariamente complexa e ‘chata’.

Quer se aprecie a obra de Lobo Antunes ou não, difícil será negar o seu impacto e valor na literatura nacional. Mas, sendo assim, o que haverá de tão valioso na escrita e nos livros deste médico que, desde a infância, disse querer ser escritor? Motivos haverá vários. Aqui ficam cinco razões, dadas por quem começou a explorar a obra ‘antuniana’ há pouco tempo e dá por si a percorrer o quarto livro do autor.


1) A capacidade de desconstrução

Se há mérito que atribuem a José Saramago é que ele ensinou os seus leitores a seguir uma narrativa de forma diferente. Afinal, o aparente desrespeito pela gramática trouxe um modo mais dinâmico de se seguir os acontecimentos de uma estória, sem formalidades ou intervalos desnecessários. Os mesmos leitores que tanto apreciam essa capacidade de desconstruir o discurso terão, igualmente, muito que apreciar em Lobo Antunes, já que também nele reside o bichinho da desconstrução.

Em “Explicação dos Pássaros”, por exemplo, o leitor é convidado a percorrer não só a narrativa que decorre naquele preciso momento, como o próprio passado e futuro das diferentes personagens. Tudo isto sem que o narrador forneça avisos prévios ou anuncie pausas para novos parágrafos. Do mesmo modo que muitos dos pensamentos do ser humano assumem uma forma irregular, confusa e até incoerente, também a narração de Lobo Antunes nos apresenta essa ‘falha’ humana em que – enquanto leitores – deixamos de distinguir o que é realidade e o que já pertence à fantasia ou ao pensamento das suas personagens.

Ainda neste mesmo livro, é dada ao leitor uma rara dualidade de perspectivas: afinal, somos convidados a acompanhar muitas das cognições da personagem central do livro apenas para, de tempos a tempos, darmos por nós próprios já a seguir os acontecimentos na terceira pessoa do singular. Estas técnicas de desconstrução acrescentam um novo vigor e intensidade à narrativa.


2) O modo como a escrita está trabalhada

Na obra de Lobo Antunes não encontramos necessariamente o mesmo português que vemos nos jornais, nas televisões, no ecrã do computador ou até noutros livros. As palavras são as mesmas, claro está, mas o signo e o significado são-nos apresentados num interessante e belo jogo: até para os objectos banais que coexistem numa casa – ou aquando da constatação da degradação física, moral ou espiritual de uma personagem – são usados períodos longos, onde sobressaem teias de metáforas e personificações que dão uma vida própria a tudo o que é narrado.

Em suma, os objectos ganham vida, as personagens surgem-nos mais transparentes e todo o texto de Lobo Antunes pode ser lido como um manual não-oficial de formas de se usar a língua portuguesa, bem como os recursos de que esta, felizmente, se pode munir.


3) A essência do livro não está (necessariamente) na estória/enredo

Ao contrário de muitos autores que fazem um forte uso de um enredo bem trabalhado – e que depois se limitam a narrar os acontecimentos em palavras e sucessões de diálogos banais – em Lobo Antunes, a estória dos acontecimentos tende a ser simples. O ambiente em que as coisas decorrem, os conflitos que se travam e os demais elementos que devem constituir uma estória coerente são um mero pretexto para António Lobo Antunes nos mostrar a complexidade e a especificidade do ser humano.

Por outras palavras, o que mais importa ao escritor é narrar as cognições, os estados de espírito, os medos ou os vestígios dos sonhos que as suas personagens – tipicamente em estado de auto-destruição – atravessam. Caso para se dizer que há uma estória por detrás da estória ‘oficial’.


4) As suas personagens são humanas, frágeis e credíveis

Há séculos que a humanidade ouve falar de homens nobres e valentes que conseguem chegar ao fim da sua demanda e atingir a glória absoluta – embora não sem muitas batalhas e sacrifício pelo meio. Do mesmo modo, as mulheres belas de uma inocência cândida e os vilões demoníacos e tresloucados sempre fizeram parte do rol de personagens de que desde tenra idade ouvimos falar.

Em Lobo Antunes, todavia, é rara a presença de personagens tão carismáticas, bidimensionais ou ‘típicas’ como estas. Em vez disso, existem homens e mulheres com angústias interiores, sonhos por cumprir, descontentamentos face ao futuro ou que, simplesmente, estão a um passo desse desastre certo a que apelidamos de loucura. Pouco de carismático haverá, com certeza, nos últimos quatro dias de vida de um homem que constata, impotente, o falhanço da sua vida antes do inevitável suicídio (e não, não há aqui nenhum spoiler, visto que a morte da personagem é entregue de antemão no começo do livro).

Estas personagens, tão distantes do homem/mulher valente e física, mental e/ou moralmente inquebrável, permitem-nos ver, reflectidos, os próprios fantasmas e erros da nossa existência e constatar que a dor, o medo e a infelicidade são, também eles, uma característica inata do ser humano. É caso para dizer que aprendemos bem mais sobre nós mesmos com esta gente imperfeita, defeituosa e amalucada do que com muitas das ‘modelos’ perfeitas e heróicas da literatura.


5) Há uma sensibilidade social nos livros

Pelo que até aqui foi dito, parece que Lobo Antunes vive (e escreve) no seu próprio mundo – um universo degradado e depressivo que se revela essencialmente introspectivo. Mas importa referir que, em muitos dos seus livros, há um Portugal também ele decadente, que é a causa implícita de tudo isto.

Em “Os Cus de Judas” há a denúncia da futilidade da Guerra no Ultramar que, a ter um efeito verdadeiramente prático, foi o de estropiar mentalmente muitos dos soldados enviados para o chamado cu de judas – o meio do nada. Já em “Auto dos Danados”, temos alguns indícios do ambiente que se vivia no pós-revolução de Abril. Abrindo a “Memória de Elefante” – uma das obras mais autobiográficas do autor – vemos o dogma de um país onde os filhos eram forçados a herdar a profissão dos pais e onde o incentivo à arte era diminuto.

No fundo, podemos aferir que as obras de Lobo Antunes são, também elas, o reflexo e uma crítica implícita ao Portugal que as viu nascer, funcionando como mais um documento histórico para melhor compreendermos o pensamento e o sentido por detrás das evoluções sociais do Portugal da segunda metade do século XX.

Não é em vão que as pessoas falam num escritor complexo, que fabrica uma prosa plena de frases longas e mudanças de direcção narrativa. Mas, se a confusão e a angústia inicial forem ultrapassadas pelo percorrer das páginas, pode ser que muitos outros venham a descobrir, tal como eu, um encanto muito especial por detrás das palavras de um dos escritores mais importantes da actualidade. Leia-se “Os Cus de Judas” ou a “Explicação dos Pássaros”. Garanto que não se vão arrepender!


por José Miguel Lopes
03.12.2013

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