domingo, 26 de abril de 2015

Margarida Contreiras - opinião sobre Memória de Elefante

Psyché é uma palavra de origem grega que se traduz na linguagem actual para mente. É neste tronco terminológico que encontramos as ramificações para os termos psicologia, psiquiatria, psicose, psicanálise, psicoterapia, todos eles viventes nas páginas deste livro. Na verdade, toda a história é contada com a objectiva presa à psyché de um médico, obrigando-nos a captar a realidade filtrada pelo seu olhar. Por isso, este é um livro peculiar.

O médico que protagoniza a história é um psiquiatra de um hospital lisboeta, cuja mente carece ela mesma também de terapia. A acção nasce na fonte sensorial e sentimental do protagonista e desenvolve-se à luz do sua experiência de vida e da consequente visão denegrida que tem do mundo. Ao virar as primeiras páginas, apercebemo-nos imediatamente que esta deturpação está profundamente ligada a uma distanciação familiar que revela, simultaneamente, necessidade de afastamento e aproximação. É por isso que as grandes sensações que fazem este livro são a frustração, a cobardia e o conformismo.

O narrador não corresponde à personagem principal por não encarnar assumidamente a sua alma, no entanto a consciência dos dois está tão próxima que podemos questionar se a narrativa se tratará de um auto-retrato na terceira pessoa. Por outro lado, as personagens secundárias são praticamente inexistentes, surgindo apenas pontualmente e como voz da consciência alternativa ressonante na cabeça do psiquiatra e actuando também elas como psiquiatras através dos seus juízos de valor. Existem sim muitos figurantes que passam pela acção da história como meio de ilustração corroborante do pensamento da personagem principal e que se traduzem, na narrativa em si, como resultado de uma observação reprovadora. Normalmente, estes figurantes agem com indiferença perante o protagonista, em movimentos frios como os dele mesmo.

O desenrolar da história é feito com marcada lentidão, concentrando-se no decorrer de apenas dois dias, e o enfoque da acção é centrado mais na descrição sensorial do que no desenvolver de acontecimentos. Esta descrição é extremamente particular: o autor descreve-nos, não a realidade com as suas cores e relevos, mas através das sensações que essas cores e relevos (eventualmente existentes) provocam no protagonista da história. Por outras palavras, o autor diz-nos o que aparenta ser em vez do que é, indicando-nos a consistência dos acontecimentos num entrançado de emoções e pensamentos, todos eles desembocando na distante memória da mulher e das filhas que nunca chegamos a perceber se é longa ou curta no tempo. A visão do protagonista através da qual assistimos à narrativa mostra uma perspectiva negra do mundo, em que é dada especial referência aos distúrbios e anomalias do âmbito da sexualidade: jovens mulheres seduzem homens velhos por interesse, prostituição, pedofilia, entre outros, embora estes sejam assuntos abordados apenas para uma representação de quimeras de um mundo simultaneamente real e abstracto e não porque sejam importantes para a acção central.

Lobo Antunes apresenta-nos uma escrita erudita e extremamente sensorial num livro que se lê sobretudo para o desfrute da palavra e da descodificação de uma mente turbulenta. Esta obra pode ser lida pelo leitor comum familiar com o mundo literário, no entanto, as suas potencialidades disparam até aos campos mais profundos da psicologia. O final será dificilmente conclusivo para um trivial leitor, convidando a uma análise desta memória de elefante que deverá ser feita de olhos semicerrados e mente aberta.


por Margarida Contreiras
08.11.2013

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

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