domingo, 19 de abril de 2015

Maria Gonçalves - opinião sobre Caminho Como Uma Casa Em Chamas

Caminho Como Uma Casa em Chamas: será possível ler Lobo Antunes sem que cada leitor faça a sua e particular leitura e entendimento? E que ainda assim lhe restem dúvidas e pedaços algo perdidos, como se de um filme complexo se pudessse reter tudo vendo-o apenas de uma só vez? 

Este é o sexto livro que leio deste autor e considero-o grandioso. Uma súmula apurada do seu estilo literário que me parece, aliás, ter-se ultrapassado. Dei comigo a pensar algo: por regra os seus personagens são de certo modo fatídicos e praticamente impotentes face às suas circunstâncias. Cogitam sobre várias formas do “se” no sentido de perceberam como alterar ou ainda efectuar algumas formas de melhoramento, mas, na verdade, vivem esmagados pela inacção, perante um passado que usurpa todos os tempos e oportunidades de vida, incluindo a alteração da mesma. O passado torna-se um presente ad eternum e o futuro é sempre o fim. O fim da infância, o fim da agilidade do corpo, o fim dos dias. Caminhar como uma casa em chamas é estar constantemente a aguardar a derrocada de todas as vigas, em particular das que ainda sustêm a estrutura.

Esta casa é um prédio cujos personagens vão sendo apresentados pelos respectivos andares de residência. Os capítulos são, portanto, o 1º esqº, o 1º dir, o 2º dir, ... até ao sotão onde, curiosamente, (não se sabe, nem ele próprio, se ainda é vivo, se ainda manda...), (sobre)vive Salazar e todas as caraminholas que alimentam medos, justificam o "cruzar de braços" e assaltam os pensamentos dos habitantes deste prédio cuja geração é a que hoje ainda guarda uma mente no passado: um passado inexorável e, portanto, impotente para o presente e para o futuro, qualquer que fosse a acção. 

Claro, e com todas as dúvidas de quem precisava ler este livro outra e outra e outra vez, esta não deixa de ser a minha própria leitura. Recomendo e reconheço ser este, dos livros que li do autor, um dos mais exigentes quanto à atenção do leitor.


por Maria Gonçalves
em Goodreads
04.01.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

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