sábado, 13 de junho de 2015

Francisco Venâncio - opinião sobre Memória de Elefante

edição brasileira Folha de S. Paulo,
2012
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O título do texto ora resenhado é bem sugestivo: trata da memória. Alguns críticos o classificaram como um texto fragmentado cuja narrativa é recheada de rememorações autobiográficas e fantasmagóricas. De facto, o texto é extremamente fragmentado, como o próprio título sugere e pode ser interpretado como uma autobiografia, pois assim como o protagonista desta história, Lobo Antunes também se formou em Medicina Psiquiátrica e exerceu sua actividade durante a guerra colonial em Angola.

A narrativa tece-se no decorrer de um dia e uma noite em torno da trajectória de um médico psiquiatra que trabalha no Hospital Miguel Bombarda: o nome do hospital não é fictício, este é o mesmo hospital no qual Lobo Antunes trabalhou. O texto tem início com a sua chegada ao hospital e término na madrugada do dia seguinte em seu apartamento no Monte Estoril. O médico psiquiatra, recém-divorciado da esposa, tem duas filhas e se mostra um sujeito deprimido, irónico, angustiado com a vida e apaixonado pela ex-esposa - dentre as declarações de amor uma que destaco:

Amo-te tanto que não sei te amar, amo tanto o teu corpo e o que em ti não é o teu corpo que não compreendo porque nos perdemos se a cada passo te encontro, se sempre ao beijar-te beijei mais do que a carne de que és feita, se o nosso casamento definhou de mocidade como outros de velhice, se depois de ti a minha solidão incha do teu cheiro, do entusiasmo dos teus projectos e do redondo das tuas nádegas, se sufoco da ternura de que não consigo falar, aqui neste momento, amor, me despeço e te chamo sabendo que não virás e desejando que venhas do mesmo modo que, como diz Molero, um cego espera os olhos que encomendou pelo correio”.

Trata-se notoriamente de uma tragédia, conforme a definição de trágico contida na Poética de Aristóteles, para quem tragédia é a imitação de uma acção acabada e inteira. Na concepção do crítico grego, inteiro é aquilo que tem começo, meio e fim, assim se um dia inteiro é composto por vinte e quatro horas, logo um texto trágico se passa no decorrer deste período, isto é, um texto trágico se passa no decorrer de um único dia. Daí, podermos afirmar que o médico psiquiatra encontra-se em uma tragédia. Também pela tessitura das acções, dramáticas e levemente melancólicas. A acção trágica dar-se-á na perda do amor: ao término do dia o médico psiquiatra “cai no canto da sereia” e se deixa enganar pelo amor superficial de uma prostituta.

Afora os detalhes apontados até aqui, Memória de Elefante é um texto excelente para quem deseja passear pelas ruas de Portugal sem sair de casa. O olhar atento e observador de António Lobo Antunes é capaz de nos transportar para além-mar em questão de minutos e conhecer não só Portugal, mas seus grandes nomes.


por Francisco Venâncio
em Indique um livro
18.05.2015

[revisão do texto por José Alexandre Ramos]

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