E a Obra de António Lobo Antunes move-se: Breves notas sobre o romance Da Natureza dos Deuses
I
O espectro da continuidade
Tecnicamente sabe-se que a Terra gira, mas de facto não damos por isso, o chão que pisamos parece que não se mexe e vivemos tranquilos. É o que se passa com o tempo na vida.(Marcel Proust, À Sombra das Raparigas Em Flor, p. 59, Volume II de À Procura do Tempo Perdido.)
Essa passagem pode muito bem aplicar-se à Obra de António Lobo Antunes, não
apenas porque, nela, o tempo é, desde os primeiros romances, um vector fulcral
(conectado com a construção e escrita da memória, cf. Cammaert, 2009:203), mas,
sobretudo, porque a opus antuniana se revela ao leitor como um mundo novo, repleto de
emaranhados, obnubilamentos e indecidíveis. O leitor desta Obra não se limita a ter
consciência de que, nela, “a Terra se move”. Ele sente esse movimento com espanto, o
que lhe exige uma atitude de indagação do mundo. É isso que sucede com a leitura de
Da Natureza dos Deuses, 26º sexto romance de António Lobo Antunes, que gera no
leitor sentimentos ambivalentes, entre a sedução e a perturbação.
Neste romance o tempo parece suspenso, sujeito ao poder opressivo da política e
do capitalismo dominantes. Esse tempo, que se assegura necessário para o
estabelecimento de uma suposta ordem natural das coisas (sempre invertida na obra
antuniana) é, na verdade, um constructo que visa criar uma inamovilidade aristotélica
do mundo. Assim, os novos deuses exercem um domínio tacitamente aceite sobre quem
os serve, por um lado porque os detentores do poder se julgam acima dos seus iguais e
incólumes à passagem do tempo, e, por outro lado, porque os que carecem de poder, de
recursos e de mecanismos para colocar em causa a ordem estabelecida, são
impulsionados a aceitá-la e a ela se juntarem, abdicando, sem razão válida, dos seus
sonhos: “porque motivo aceitamos ser palhaços dos homens, a rirmo-nos do que não
tem graça e a acharmos fascinante, […]” (ND, 147).
Neste romance não parece, pois, desenhar-se qualquer saída revolucionária (aliás
in-existente na obra antuniana), vislumbrando-se, antes um espectro de continuidade.
II
O epicentro da mudança
Baseado no título homónimo da obra de Cícero, De natura deorum (45 a.C.),
algumas das acções deste novo romance de António Lobo Antunes decorrem numa casa
“empoleirada” num “alto”, onde se destaca a estátua de Vénus (símbolo do perene e do
poder). O dono da casa, conhecido como “o senhor doutor”, vai “degolando gente pela
vida fora”, o que o dota de um poder incontestável. A partir desse olimpo, “o senhor
doutor” vai “dirigindo os palhaços e os maridos dos palhaços, o duque inglês, os
alemães cada vez mais numerosos” (ND, 156). Aí se reúne com os seus “súbditos”
(assessores, amantes e gente influente, que formam “ramalhetes sociais” (Proust, 2003:
99), ou seja, gente heterogénea) em torno de um jogo de ténis (que, como o campo de
tourada em Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, representa a arena moderna, onde a
força não se liga à “raça”, mas àquele que tem o dinheiro para ter a força ou que tem a
força para ter o dinheiro: veja-se a chantagem sobre o parceiro de jogo, que é ameaçado
com o desterro para a província). Estes encontros provam que não há, neste tempo (as
acções centrais decorrem durante o Estado Novo), ninguém livre, e que o Estado resulta
da confluência dos poderes político e económico (Deleuze e Guattari, 2004: 276).
Dono de bancos, quintas, casas com piscinas e minas de volfrâmio, colecionador
de automóveis, com contas em offshores, o “sevandija” (ND, 320) visita, aos domingos,
“o senhor presidente” (alusão aos encontros entre o líder do clã Espírito Santo e
Salazar), num colóquio entre aqueles que “mandam em Portugal” (ND, 207). Esse
(geo)poder, indiferente à História porque se considera a si próprio «a História»,
representa as forças que se movem para, afinal, nada se alterar:
eu dono de quase tudo e ele dono do resto, do que a gente chama Pátria ignorando o que é a Pátria, chama História ignorando o que é a História, ou chama egrégios avós ignorando o que são egrégios e avós […] (ND, 418)
Recorde-se, a este propósito, o descrédito e a caoticidade em que é colocada a
revolução de Abril em Fado Alexandrino. Nesse romance, como em As Naus, a
revolução é vista como um naufrágio (cf. Carvalho, 2014:99). A mudança é, pois,
aparente ou, como se diz em À la Recherche du Temps Perdu, “A única coisa que não
muda é que parece sempre que existe «alguma coisa que mudou em França»”. (Proust,
2003: 95) Este nihil novi sub sole (Eclesiastes, 1, 10), que faz parte da mundividência
antuniana, torna difícil discernir como pode o mundo mover-se de facto, pois se o
mundo devia ser feito da natureza ou da matéria dos sonhos, não é somenos verdade
que é nos meandros do poder que se decide o curso dos acontecimentos. No romance de
Lobo Antunes, a casa de Cascais é o epicentro dessas decisões (lugar a partir do qual
todos os negócios se movem para que nada se mova), tendo na livraria situada no centro
da vila (e que pode encontrar na “Livraria Galileu” um elemento referencial, onde a
cave se destaca como lugar imagético, tão relevante quanto o sótão na obra deste autor)
o seu contraponto, precisamente por nela nada se decidir.
A discussão sobre os deuses, levada a cabo em Da Natureza dos Deuses, de
Túlio Cícero, perspectiva-se eterna. Se Balbo acredita que tudo tem uma ordem precisa,
que nada há de fortuito, porque tudo depende dos deuses (Cícero, 2004:85), a discussão
prossegue em Lobo Antunes, dado que, hoje, o lugar dos deuses mortos é ocupado por
novos deuses: os homens que, tendo o governo dos seus iguais, não se julgam feitos da
natureza humana (mesmo que esta seja a natureza do que muda). Todavia, a assunção de
que nada muda não é definitiva na obra de António Lobo Antunes. Efectivamente,
mesmo que o poder se estabeleça e perdure, o romance antuniano vem garantindo que
(recordando a frase atribuída a Galileu no século XVII) «eppur si muove».
Ora no romance Da Natureza dos Deuses a mudança principia precisamente no
lugar mais improvável, a livraria, pois esta representa a apologia do hermético, quer
devido às chaves “misteriosas, secretas” (que, no capítulo inicial, abrem a porta desse
lugar, ND, 13), quer fruto das coisas, aparentemente proibidas, que aí se passam na
cave. Essas chaves serão, mutatis mutandis, as “chaves” de que necessita o leitor do
romance antuniano para decifrar o romance (SLC, 113), e que vêm com o próprio texto,
significando este aspecto que o leitor tem de recusar a “sua chave”. Aqui, como na
filosofia, o ponto de partida será a ignorância (Cícero, 2004: 19).
A livraria será, em suma, um lugar compatível com a “magia da palavra” (é nela
que Fátima se apercebe que o eixo da terra se move) que deveria mudar o mundo. A
cave (lugar oposto ao topo onde se situa a casa do “dono do país”) representa o
«conhecimento do inferno», um conhecimento para o qual parece já não existir lugar
num mundo desencantado, dado que o saber (que reside nos livros) foi suplantado pelo
poder.
III
A natureza da Obra
Os livros são feitos da verdadeira matéria humana: os sonhos. Aqueles que
sonham podem não mudar a História, sendo, não raras vezes, os que dela são vítimas
(vítimas do poder másculo - como a empregada da livraria, que é violada, ou a Senhora,
que é aprisionada no alto da casa -, do poder político - como o adjunto do senhor doutor
-, da doença - como a cantora -, ou do desespero – como Marçal, o servente e, por
vezes, duplo do senhor doutor porque este o obrigava a cumprir as suas obrigações
conjugais com a Senhora). Essas dramatis personae não são as que participam da
História, mas, antes, “da pequena história do dia-a-dia” (Seixo, 2002: 126), que é a que
mais interessa na obra antuniana, de entre as quais se destaca o “sem abrigo”, que
vemos errar incessantemente.
Ainda que não se dilucide a identidade desta personagem enigmática, que
mantém um silêncio indecifrável, a sua indiferença para com todos os movimentos
sociais torna-se numa ameaça ao estilo de vida dos deuses. Como um corte para com a
narrativa, o misterioso é o incontrolável, pois a passividade dessa personagem parece ter
laivos do transcendentalismo norte-americano, que encontramos em Thoreau. De resto,
essa personagem que, na obra de Lobo Antunes, a par de outras marginalizadas
(consubstanciadas na figura do palhaço pobre, cf. Carvalho, 2014: 174-176), adquire a
predilecção dos narradores, surge logo no incipit do romance a dormir no degrau da
livraria.
Esta personagem marginal liga-se à paródia, que é, em suma, a subversão
imposta pelo próprio romance. Tecida de mistérios, a obra de arte tem um carácter
enigmático, e por isso ela “macaqueia à maneira de um clown” (Adorno, 2008: 186).
Como palhaço pobre, o “sem abrigo” toma banho nos chuveiros da praia e faz
malabarismos com bolas. Desprovido de todo o tipo de bens materiais, sem acesso ao
poder, circula em silêncio num mundo tenebroso de homens poderosos cujo único
propósito parece ser enriquecer para ter poder e ter poder para enriquecer.
Descomprometido e livre, sem desejos inconscientes de grupo (Deleuze e Guattari,
2004: 268), o “sem abrigo” recusa-se a aceitar o desejo de desejar ter poder. Ele não
será um Deus ex machina, mas um homem que, não podendo intervir no curso da
História, vai sendo mais humano. Esta expressão significará, de outro modo, mais
próximo da natureza dos deuses.
Se é um anjo ou um deus, o que não se pode discernir por completo, o errante é
(como o romance será) aquele que foge aos cânones estabelecidos (isto é, aos focos do
poder). De facto, para além deste “sem abrigo” só o próprio romance (metonimicamente
representado pela livraria, que, na cave, contém todos os livros de todos os temas) se
move: Fátima, como “caixeira da livraria”, parte para a casa da Senhora carregada de
livros, ainda que a Senhora, mais do que ler, procure alguém que a oiça em silêncio
contemplativo. São, aliás, tantos os pacotes de livros que Fátima transporta para a casa
de Cascais que esta parece ser invadida e ficar “cercada”. Esta situação alude à
bibliomaquia que ameaça o poder, como se tudo fosse efémero, menos as grandes
obras, que são as que se movem intemporalmente. Portanto, o sem abrigo (que não fala)
e os livros (que a Senhora não lê enquanto Fátima não fala), parecem ser feitos de uma
outra natureza, “da natureza do silêncio e do mistério”, veios de um texto que se move
silenciosamente, ora revelando, ora ocultando-se, criando ruturas aparentemente
imperceptíveis e sentidos frequentemente obscurecidos (vejam-se as palavras truncadas),
talvez porque o próprio autor seja, tão-só, um mensageiro:
e aguentar o quê se a voz nem a si mesma obedece quanto mais a mim que a não fiz, não passo de um carteiro a entregar encomendas que não escrevi nem recebo, passaram-mas assim […] (ND, 532)
Para muitos ficará, certamente, a proximidade deste romance de Lobo Antunes a
factos conhecidos da vida nacional: referimo-nos, evidentemente, ao ocorrido com o
Banco Espírito Santo. Todavia, é de referir que este romance, escrito antes desses
acontecimentos, faz parte de uma Obra cuja mundividência tende a privilegiar a
concepção do texto em relação ao mundo, pois é com palavras que o mundo se pode
verbalizar (cf. Seixo et al., 2008:415 e ss). Assim, mesmo que não rejeite aspectos
históricos, e com eles se conecte, anunciando que o sistema financeiro, político e social
português faliu (como falira a República no tempo de Cícero), este romance (como parte
de uma Obra) pretende, acima de tudo, transcender(-se) enquanto palavra que se move,
isto é, que se renova a si mesma. O “romance de páginas de espelhos”, que António
Lobo Antunes disse um dia projectar (LC, 52), seria aquele em que o leitor visse o
passado, o presente e o futuro. A transcendência de uma Obra resulta, antes de mais, do
facto de as grandes Obras serem “antecipação de um em-si que ainda não existe”
(Adorno, 2003:124). É isso que as aproxima da natureza dos deuses.
Bibliografia:
ANTUNES, António Lobo, Da Natureza dos Deuses (ND) (provas gentilmente cedidas pelo autor e pela editora), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2015.
___________Livro de Crónicas (SLC) 9ª edição/edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2013 [1998].
___________Segundo Livro de Crónicas (SLC) 2ª edição/ 1ª edição ne varietur, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2007 [2002].
ADORNO, Theodor, Teoria Estética (trad. Artur Mourão do original Aesthetische Theorie), Lisboa, Edições 70, 2008.
CAMMAERT, Felipe, L’ Écriture de la Mémoire Dans L’Oeuvre d’António Lobo Antunes et de Claude Simon, Paris, L’Harmattan, 2009.
CARVALHO, Susana João, António Lobo Antunes: A Desordem Natural do Olhar, Lisboa, Texto, 2014.
CÍCERO, Marco Túlio, Da Natureza dos Deuses (trad. e notas Pedro Braga Falcão) Lisboa, Nova Veja, 2004.
DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Félix, O Anti-Édipo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2004 [1972]. PROUST, Marcel, À Sombra das Raparigas Em Flor (Volume II de À Procura do Tempo Perdido), tradução de Pedro Tamen, Lisboa, Relógio D’ Água, 2003.
SEIXO, Maria Alzira, Os Romances de António Lobo Antunes, Lisboa, D. Quixote, 2002.
SEIXO, Maria Alzira, ABREU, Graça, CABRAL, Eunice, AFONSO, Maria Fernanda, SOUSA, Sérgio Guimarães de, e VIEIRA, Agripina Carriço, Dicionário da Obra de António Lobo Antunes (volume II), Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.
por Norberto do Vale Cardoso
texto publicado na Revista Colóquio/Letras, n.º 190, Set. 2015, p. 131-135
[revisão segundo ortografia antes de AO90 por José Alexandre Ramos]
